Fazer doutorado sanduíche fora do Brasil sem bolsa é possível?

Captura de tela 2016-04-18 às 21.29.09

160308174345-retirement-savings-bubbles-780x439

Nas últimas semanas conversei ao vivo com algumas colegas e recebi frequentemente esta pergunta via facebook. Muitos me questionam como eu estou prestes a viajar sem ter recebido bolsa capes/cnpq/etc ou se eu vou manter a minha bolsa regular atual.

Eu vou para o Canadá, a princípio, sem bolsa. Não, eu não sou rYca e não tenho mãe ou pai pagando pelo meu sanduíche.  Foi uma série fatores, com muito planejamento e organização, que me possibilitou a não desistir de um plano que faço há cerca de seis anos.

Vamos ao começo – como expliquei no post sobre OBABÁ do doutorado sanduíche, geralmente quem se submete ao estágio doutoral fora do Brasil tem o apoio de órgãos governamentais que cedem bolsas de estudo aos aplicantes.

Nos últimos dois anos o nosso país tem enfrentado uma crise bem grande. Não vou entrar nos méritos de quem e o que causou a tal crise, mas o fato é que muitos recursos de diversas áreas prioritárias – como a educação – foram cortados.

Desde maio do ano passado bolsas Capes –  que antes funcionavam em fluxo contínuo como eu explico aqui – foram cortadas. Desde dezembro de 2015 não são concedidas bolsas pelo sistema do CNPq, sendo que apenas em abril desse ano eles “admitiram” que não têm mais recursos para bolsas.

Ainda no ano passado, quando eu vi que as coisas estavam apertando, comecei a me planejar melhor para viajar sem o apoio de bolsa.

Dá para manter a bolsa do Brasil e ir para fora?

Se você recebe através da Capes ou do CNPq no Brasil, você teoricamente você pode ficar alguns meses fora do país recebendo a sua bolsa. O processo precisa ser aprovado  seguindo  exigências da Capes/CNPq e do seu programa.

A Portaria 076 Capes diz: 

“Coleta de dados ou estágio no país e exterior ; Art. 12.

Não haverá suspensão da bolsa quando:

I – o mestrando, por prazo não superior a seis meses, ou o doutorando, por prazo de até doze meses, se afastar da localidade em que realiza o curso, para realizar estágio em instituição nacional ou coletar dados necessários à elaboração de sua dissertação ou tese, se a necessidade da coleta ou estágio for reconhecida pela Comissão de Bolsas CAPES/DS para o desenvolvimento do plano de trabalho proposto; 

II – o doutorando se afastar para realizar estudos referentes a sua tese, por um período de dois a seis meses, conforme acordo estabelecido entre a CAPES e o DAAD – Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico ou demais acordos de natureza semelhante.”

O que o Cnpq diz:

CNPq: 4.11.2 – É permitido, em relação às bolsas de mestrado e doutorado: b) afastamento para estágios de até 6 (seis) meses em outras instituições do País ou exterior, com manutenção da bolsa, sem ônus adicional e sem acúmulo de benefício, desde que justificado pelo orientador e aprovado pelo CNPq;

A legislação do CNPq parece ser mais clara que a da Capes. Ainda assim, as duas fornecem abertura para o pedido.  Se o “estágio” só pode ser feito em território nacional, a “coleta de dados” é a justificativa para o afastamento via Capes.

A situação atual mudou a legistação?

Não. Ela permanece a mesma. No entanto, alguns departamentos estão sendo mais menos rígidos e facilitando aos doutorandos o processo de manter as suas bolsas.

No meu programa, em recente reunião a coordenadora afirmou que tentaria manter as bolsas para quem solicitasse. Ainda assim, não foi dada uma palavra final ainda se será possível manter ou não a minha bolsa. Até o final do mês eu devo entrar com um pedido oficial para o colegiado avaliar o meu caso. Se aprovarem, de acordo com a coordenação do meu curso, eu continuarei recebendo a bolsa enquanto estiver fora. Se não, terei que comunicar a Capes sobre a minha viagem e pedir que eles cancelem o recebimento por um ano, até meu retorno ao Brasil.

Eu realmente espero que eles compreendam que mesmo lá, longe, eu continuarei trabalhando na minha tese e produzindo para o meu curso. Mas infelizmente ainda essa semana uma colega de um outro departamento da UFSC me disse que o que foi passado para ela é que manter a bolsa não é um procedimento aceito.

No fim, está tudo muito confuso. Eu vou apelar para o que a própria legislação da Capes, aquela de cima, diz.

Dá pra se sustentar com a bolsa regular do Brasil, em reais, lá fora?

Dificilmente. Depende muito de como a pessoa vive, de onde ela vai viver. Imagina converter 2.200 reais para libras? Não dá pra fazer praticamente nada. Ainda mais que a passagem e o seguro saúde ficam por conta do pesquisador.

Ainda assim, tem pessoas que eu conheço que foram para os EUA (ainda na época das vacas gordas com a bolsa Capes para doutorado sanduíche) e gastavam menos de 700 dólares por mês. Considerando que, hoje, 2.200 reais seriam cerca de 600 dólares, o prejuízo não seria tão grande. Em países da América Latina eu já ouvi falar que é super possível se manter com R$2.200.

Resumindo, em algumas situações eu acredito que a pessoa consegue se sustentar inteiramente ou pelo menos a bolsa ajuda muito a pessoa a se manter com ajuda de alguma economia prévia. Ainda assim, é uma questão muito pessoal.

Agora estou esperando que venham pessoas raivosas por aqui me questionando “COMO ALGUÉM SOBREVIVE COM ISSO! O QUE ESTÁ DIZENDO É UM ABSURDO”

Gente, eu tô falando que cada caso é um caso.

Há algum tempo eu perguntei em uma comunidade no Facebook se alguém já tinha ido para fora com a bolsa do Brasil e como tinha sido a experiência. Várias pessoas vieram dar palpites indelicados, fazer piadinha e me questionar sobre o absurdo de se sustentar com 2.200 reais fora do Brasil. Quase fui chamada de louca por cogitar sair do Brasil sem a bolsa em dólares. Eu só estava perguntando sobre experiência de quem havia feito aquilo, não estava pedindo palpites agressivos sobre a minha vida. Mas tudo bem, faz parte da poço de raiva que a internet tem se transformado.

Por isso, adianto: não tô aqui para dar uma solução universal para ninguém, só estou passando a minha experiência e o que eu busquei sobre o assunto. Confiram nos seus departamentos as informações, façam suas próprias contas e, por favor, guardem o ódio para outro lugar.

Retornando ao post, como o dólar tá muito instável, a cada dia e a cada novidade política ele oscila, também vivemos uma situação meio montanha russa. No fim, tudo é uma grande aposta. O melhor é estar preparado para pagar- literalmente – caso o seu palpite dê errado.

Caso cortem a sua bolsa no Brasil o que fazer?

Como expliquei em outros posts, no Canadá eu ganho um visto de estudante que me permite a trabalhar até 20h por semana. O salário mínimo na província que eu vou é de mais ou menos 11 dólares a hora. Isso dá cerca de $880 dólares (bruto, sem o desconto de imposto) por mês.

Eu não vou sozinha, meu companheiro vai junto. Ele poderá trabalhar até 40h (salário mínimo bruto de $1760 por mês). Com os dois trabalhando, mesmo que por meio período, teremos uma renda suficiente para nos manter por lá.

Para os gastos extras, vim economizando durante os últimos anos. Já sabia que teríamos que pagar a passagem e o plano de saúde do meu esposo por fora, sem contar os primeiros gastos de relocação, visto, montar a casa, etc.

Às vezes repensar o local da sua pesquisa, procurar um país/estado/universidade que permita você ou seu acompanhante trabalhar possa ser uma saída para passar um ano fora. Em diversos estados dos EUA, por exemplo, eu sei que a esposa/esposo podem solicitar uma permissão de trabalho após o desembarque no país. São fatores importantes a considerar. No Canadá há a possibilidade de você trabalhar 20h. Não sei sobre os outros países, vale conferir.

poupanca

Conclusão: Como meu  planejamento era antigo,  tive que readaptar muita coisa. Não era minha intenção ter que trabalhar em outra coisa fora da minha tese no meu período de sanduíche. Já passei quase dois anos do doutorado trabalhando como professora substituta e vi como acabei não me dedicando da forma que eu queria para a minha tese.

Poder se dedicar exclusivamente para o doutorado é um privilégio que tenho atualmente e gostaria de manter até o final do curso. No entanto, não vou perder uma oportunidade de finalizar meu trabalho fora do Brasil por causa disso. Prefiro ter quer trabalhar servindo café durante 20h semanais e ter a chance de melhorar meu trabalho no Canadá do que ficar aqui sendo bolsista integral.

É tudo uma questão de planejamento e de escolhas. Sugiro que você coloque isso na balança e pese o que é mais importante para você. Meu período como professora substituta 40h na UFSC  coincidiu com os anos iniciais do doutorado. Durante quase dois anos eu trabalhava muito mais que 40h semanais. Passei quase um ano sem ter um final de semana de folga, tive que morar longe do meu esposo, não tive férias de verão nem de inverno, perdi todos os eventos sociais possíveis, amigos se afastaram por causa da minha ausência e tive até uma úlcera nervosa. Ainda assim, não me arrependo de ter passado por essa experiência. Para mim, foi corrido, nervoso, sofrido, mas valeu cada segundo.  Tenho certeza que meu doutorado sanduíche fora do Brasil também vai valer cada centavo e cada gota de suor.

Em um próximo post pretendo fazer um levantamento básico de custos para ajudar no planejamento de quem acompanha o blog. Se tiverem alguma dúvida, a página no facebook é um meio bem rápido para a gente se comunicar. Até a próxima!

 

 

 

 

 

Advertisements

20 thoughts on “Fazer doutorado sanduíche fora do Brasil sem bolsa é possível?

  1. Larissa

    Olá,
    é bom saber que eu não sou a única “louca” fazendo isso.
    Fico muito feliz em saber disso…. Vou acompanhando seus posts.
    Forte abraço!

    Like

    1. Fefs

      Que legal, Larissa! Boa sorte para você e parabéns pela persistência! Podem achar que é loucura, eu acho que é determinação!

      beijo

      Like

  2. Alfredo Costa

    Olá, como vai?

    Gostaria de saber se fará o curso via parceria institucional ou se terá que pagar as mensalidades do curso no exterior. Estou tentando um sanduiche em Portugal e até topo ir sem a bolsa, caso seja necessário. Sei que é abusar de sua boa vantagem, mas poderia fazer uma nova postagem sobre como foram os trâmites?

    Agradeço! Um abraço, Alfredo.

    Like

    1. Fefs

      Alfredo, a intituição que eu vou, a University of British Columbia, não cobra para o processo de “visiting Phd student”. Tenho um post sobre o processo para obter a carta da universidade (https://doutoradonocanada.wordpress.com/2016/03/26/como-obter-a-carta-de-aceite-da-universidade-canadense-ubc/) e outros sobre o contato com os professores (https://doutoradonocanada.wordpress.com/2016/03/25/e-o-canada-entrou-na-minha-vida-s2/).
      Não sei ao certo como funciona em portugal, mas talvez os posts te ajudem.

      Abraço

      Like

  3. Flavia

    Parabéns! Estou pensando seriamente em fazer isso, já conversei com meu orientador da Inglaterra sobre a possibilidade de trabalhar e estudar fora. Desejo boa sorte!

    Like

  4. Ismael Gerhardt

    Olá, parabéns pelo post. Gostei muito das dicas. Aliás, compartilho com a autora do blog e com os demais que eu também vou fazer doutorado sanduíche com a minha bolsa do Brasil lá nos EUA. Conversei com o meu futuro orientador, expliquei a minha situação que gostaria muito de ter essa experiência internacional mas que não tinha dinheiro suficiente para me manter lá com apenas $600 aproximadamente, e ele gentilmente se ofereceu a me pagar uma bolsa (que são dos fundos da pesquisa de projetos científicos dele) de $500 por mês, e com essa ajuda financeira e mais a bolsa do Brasil consigo me manter. Me sinto bastante privilegiado por ter essa oportunidade de um pesquisador q nem me conhece me oferecer uma ajuda de custo mensal a troco de trabalhar no seu laboratório de pesquisa. Se Deus quiser em Agosto estarei indo para lá passar um período de 6-8 meses.

    Aproveito para fazer umas perguntas para a autora do blog em relação ao visto, se for possível, é claro. Acredito que você está indo com o visto J-1, certo? Já li no site da embaixada americana que uma das regras desse visto é de ficar depois do vencimento do visto no país de origem (no nosso caso no Brasil) por 2 anos sem poder voltar aos EUA. E eu sei que uma das regras da Capes para a bolsa sanduíche, também dizia que após o doutorado sanduíche, o aluno deve ficar no Brasil por pelo menos o mesmo tempo em que estava fora durante o sanduíche. A minha pergunta é: você sabe se essas regras realmente se aplicam? Se aplicariam no nosso caso de irmos sem a bolsa sanduíche? Porque até então essa regra eu achava que era apenas da Capes por estar financiando esse treinamento internacional ao aluno, mas depois vi que no site da embaixada americana também diz dessa regra do visto J-1 que depois de retornar ao país de origem, não pode voltar aos EUA pelo prazo de 2 anos… não fala nem pelo mesmo período em que esteve nos EUA, mas diz 2 anos. Será que existe alguma maneira de tirar esse visto J-1 sem que aplique a essa regra?
    A minha pergunta é porque logo depois que defender o doutorado, pretendo voltar aos EUA para um possível trabalho. Então para mim é muito importante saber esse detalhe.

    Muito obrigado.

    Like

    1. Fefs

      Oi, Ismael! Obrigada pelo comentário e por compartilhar a tua experiência por aqui! Infelizmente eu não posso te ajudar muito no quesito visto, no Canadá o processo é bem diferente.

      Acho meio estranha essa regra de não poder voltar para os EUA. Tive colegas que voltaram em menos de um ano para apresentar trabalhos em congressos, sem impedimento nenhum (tiveram só que tirar um visto de turista). Acho que seria bom você perguntar para algum consultor, mas sei de bastante gente que retornou, não para morar, mas como visitante.

      Like

  5. Michelle Pereira

    Olá, tudo bem?
    Parabéns pelo blog, cada post vem ainda melhor do que o anterior, cheio de dicas ótimas!
    Você sabe se o visto para estudar e trabalhar no Canadá exige um prazo de permanência no Brasil após o retorno, como ocorre nos EUA?
    Também estou planejando ir para BC, de repente nos vemos por lá! 🙏
    Abraços

    Like

    1. Fefs

      Obrigada pelo comentário, Michelle. Até onde sei não essa condição. Muitas pessoas, inclusive, iniciam o processo de residente permanente depois dos estudos.
      Abraço!

      Like

  6. Olá, sou outra louca, então rs. Minha situação é bem parecida com a sua, minha ideia inicial era ir para os EUA, mas como meu marido vai largar o emprego aqui no Brasil para me acompanhar (outro louco), escolhi o Canadá pois lá ele recebe o work permit e pode trabalhar (nos EUA não poderia). Todo mundo me criticou também no grupo do facebook por ir sem bolsa. Mas estou tranquila, pois esse é um sonho de muitos anos que tenho e não vou deixar de ter essa experiência e fazer contato para um futuro pós-doc porque meu país está em crise. Eu e meu marido também temos economias guardadas que vamos usar para isso e ele trabalhando lá fico mais tranquila.
    Abraços,

    Celline

    Like

    1. Fefs

      Que legal, Celline! Fico feliz em saber que tem mais “loucas” por aí! Muita sorte e persistência para você nesse caminho árduo – pq nós precisamos!

      Like

  7. Carol

    Me sinto mais aliviada em saber que não sou a única a tentar algo parecido! Espero que esteja dando tudo certo para você!
    Só tenho uma pergunta, você comenta no post sobre entrar com um pedido oficial no colegiado, como que você fez isso? Tem algum documento padrão ou depende da universidade e do departamento?
    Obrigada!

    Like

    1. Fernanda Friedrich

      Oi, Carol, Não deixe de tentar, o máximo que pode acontecer é você receber um não. Mas, para ser sincera, há a portaria que determina 1 ano fora para coleta de dados ou seis meses no exterior para intercâmbio. A forma com que o seu departamento vai interpretar depende deles. Não há um documento certo para fazer o pedido, o meu eu fiz baseada nas regras do departamento. Sugiro você conversar com o secretario do seu curso e/ou com seu orientador. Boa sorte!

      Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s