Como é levar a família para morar fora do país – Filhos pequenos (parte 1)

Resolvi iniciar uma nova série por aqui que pode ajudar algumas mamães e papais que ficam com medo de morar fora do Brasil com seus filhos.

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Primeiramente, eu não tenho filhos. Mas eu fui a criança que morou fora durante o doutorado sanduíche do meu pai. Posso garantir que hoje minha vida seria MUITO diferente se eles não tivessem tido a coragem de, lá em 1994, passar um ano nos Estados Unidos.

Fomos para o estado da Virginia em 1994, quando eu tinha 9 anos de idade. Naquela época as coisas eram bem complicadas financeiramente para muitas famílias, para a minha foi um período bem difícil de equilibrar as contas. Lá em casa não existia a opção de realizar atividades fora da escola pública na qual eu estudava. E, nos anos 90, pelo menos na cidade onde eu morava, não era comum crianças estudarem línguas estrangeiras no ensino fundamental.

Contei isso tudo para contextualizar que eu viajei sem saber uma palavra em inglês. Na verdade eu sabia uma frase que decorei “My name miss Fernanda”. Nada de verbo to be. Eu achava que miss era de miss, tipo miss Brasil. Falava super feliz, achando que era um elogio ser chamada de miss. Para ter noção do nível do meu “domínio” de inglês.

Cheguei no mês de dezembro, tinha acabado a terceira série por aqui (equivalente a quarta série hoje em dia). Meu pai me matriculou na escola americana e na mesma semana em que eu cheguei comecei às aulas regularmente. Como eu tinha um ótimo desempenho aqui no Brasil, me permitiram entrar na metade da quarta série (as aulas no hemisfério norte começam em agosto e eu cheguei em dezembro). Mesmo eu tendo acabado de terminar a terceira no Brasil e sem falar inglês, pulei metade da quarta série.

Eu realmente não sabia falar nada. Lembro de gesticular para a professora na primeira semana em um dia que eu queria fazer xixi e precisava ir no banheiro. Lembro dos meus colegas falando coisas que eu não entendia e como era minha tentativa constante de me comunicar com eles. Lembro de um dia, provavelmente uma ou duas semanas depois de eu ter começado às aulas, em que eu fiz uma tarefa em que eu tinha que escrever todas as palavras em inglês que eu sabia. Fui correndo mostrar a atividade para o meu pai, eu tinha escrito umas 50 palavras. Lembro dele me falando “É, filha. Você vai precisar estudar muito ainda”.

Nenhuma destas recordações me traz medo, insatisfação, vergonha. Eu sempre lembro disso com o maior orgulho, com uma felicidade imensa. Lembro como foi desafiador, como eu me sentia realizada cada vez que eu conseguia entender uma palavra.

eu e duda(Eu e meu irmão visitando a Casa Branca. Eu, aos 10, já com uma câmera na mão.)

Aos poucos meu vocabulário foi crescendo, minha fala foi se desenvolvendo.No dia em que celebramos meu aniversário na escola, com cerca de três meses de sala de aula, eu comecei a falar tanto que a professora teve que pedir para eu ficar quieta. Acho que ali eu me dei conta que eu não sentia mais dificuldade em falar com ninguém, eu já tinha dominado a língua.

É claro que provavelmente eu falava verbo errado, conjugações ruins, enfim. Mas eu me comunicava sem problema algum e diferente de nós adultos, que ficamos com vergonha de falar algo errado, quando somos criança estamos pouco nos lixando para erros. Eu lembro que eu queria é falar. Recordo de como conseguir a fluência em inglês foi uma conquista. Aos poucos eu fui falando melhor e tirando notas mais altas em inglês.

Quando voltamos para o Brasil, eu já estava na metade da quinta série estadunidense. Voltei, tive férias e cursei o começo da quinta. Como meus pais ouviram muitos relatos de crianças que depois de aprender inglês fora voltaram ao Brasil  e ao se afastarem da língua gringa  acabaram esquecendo muita coisa, eles suaram a camisa e conseguiram pagar um curso de inglês para mim. Como eu já falava muito bem, pulei todas as fases infantis (na época crianças até 13 anos cursavam essas turmas). Eu fui para o final do nível intermediário de adultos. Meus colegas eram quase todos 10 anos mais velhos que eu (eu com 11 e a galera na casa dos 20).

Em pouco mais de dois anos eu me formei em inglês, aos 13. Na época, em 1998, eu fui a pessoa mais jovem do Fisk (escola que eu cursava) a me formar por lá. Provavelmente alguém já derrubou meu recorde, mas na época do ocorrido era um super orgulho.

Nos próximos posts eu conto mais sobre fatos de morar quando criança fora do país e também falo sobre como é morar adolescente (meu pai foi fazer pós doc e lá fomos nós novamente para os EUA).

 

 

 

 

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