Como é levar a família para morar fora do país – Filhos pequenos (parte 2)

Bem, continuando o último post, falo de aspectos mais específicos sobre morar fora do Brasil aos 9 e 10 anos.

eu e duda

Seria até idiota eu explicar aqui que meu inglês provavelmente nunca seria o que é sem essa experiência.  Resolvi trazer alguns dados mais oficiais sobre aprendizagem de uma segunda língua na infância.

Quando fiz mestrado em Literatura Inglesa na UFSC, tivemos algumas aulas sobre fonética e aprendizado de um outro idioma. Nas aulas ficaram claras as diferenças que eu já sentia na pele: aprender inglês (ou outra língua) através de imersão (morando no local da língua),  quando se é criança faz com que sua experiência de aprendizado seja completamente diferente de aprender inglês adulto ou em algum cursinho no Brasil.

É comprovado cientificamente que p cérebro de alguém que aprendeu outra língua por imersão quando criança funciona de forma diferente. Crianças bilíngues conseguem raciocinar mais rápido, ter uma compreensão mais complexa de acontecimentos e teorias.

Durante o mestrado aprendi que entre as grandes consequências deste aprendizado está a forma com que a criança  consegue desenvolver a sua compreensão para fonemas que não existem na sua língua mãe. Ainda quando cresce, a pessoa que é bilíngue desde criança tem um ouvido capaz de captar sons que os adultos sem esta fluência não são capazes. Tô tentando resumir aqui uma teoria bem complexa…. mas basicamente, todo o nosso funcionamento -seja em raciocínio lógico ou a fala em geral – é alterado.

Um exemplo: algumas pessoas não falam think, falam fink. Não é porque a pessoa é burra ou surda. É porque ela não consegue distinguir a diferença de FIN para THIN. Assim ocorre no aprendizado de diversas línguas ou outras palavras como world, beach, tough, etc.

Uma criança que aprendeu outra língua na infância, mesmo quando adulta, terá facilidades para aprender novas linguagens e novos fonemas por ter o funcionamento do cérebro alterado. Ou seja, a imersão, com certeza absoluta, será ótima para sua filha/o.

Tirando todo esse aspecto, bem, eu comecei a dar aula de inglês aos 15, 16 anos. Amo música, nem preciso falar sobre livros, filmes e séries. Honestamente, não lembro da última vez que não consegui entender o contexto geral do que ocorre. É claro que alguns sotaques, algumas gírias e até algumas palavras fogem do meu entendimento. Mas raramente preciso procurar um dicionário para me tirar dúvidas.

Várias pessoas me falam que eu não tenho sotaque. Não acredito nisso, eu tenho sim. Uma ou outra palavra entrega. Mas já tive algumas amigas americanas e de outras nacionalidades que não acreditaram que eu era brasileira. Teve um caso de uma amiga minha, que conheci na adolescência na Virginia, que só depois de um ano convivendo comigo soube que eu era do Brasil. Ela me disse, “pensei que você fosse de um daqueles estados lá do meio, onde as pessoas falam umas palavras meio estranho.”.

Sobre educação em geral: A escola dos EUA também me ajudou muito. Criei um hábito de leitura que minha escola não cultivava no Brasil. Duas ou três vezes por semana, a gente tinha uma aula de leitura. Eram 40 minutos onde cada um pegava um livro na biblioteca – ou trazia de casa – e lia. Eu chegava a ler um livro de 150, 200 páginas por semana. Nada mal para uma criança de 9/10 anos. As outras matérias também eram muito legais. Como eu era cdf e a matemática deles é meio atrasada em relação a nossa, eu tirava 100 em todos os testes praticamente.

Sobre alimentação: Todas as porcarias que eu não comia no Brasil eu tive acesso nos EUA. Aqui eu nunca tinha comido no McDonalds. Lá, eu comia uma vez por semana. Eu tomava café da manha e almoçava no colégio e, como vocês devem saber, a comida das escolas por lá não é muito saudável (imagina nos anos 90, antes do politicamente correto). Engordei pra caramba. Quando cheguei no Brasil minha mãe me levou em uma pediatra. Ela mandou eu emagrecer e em três meses eu já estava no meu peso normal. Pra mim, valeu a pena! Minhas memórias comendo doce do dia das bruxas, sorvetes, batata frita, nunca serão esquecidas! #gordita

Sobre saúde: Nunca tive nenhuma doença no Brasil, mas peguei catapora nos EUA. Teve um surto no meu colégio e eu fui premiada, bem na semana em que haveria uma viagem. Não fui na roadtrip, chorei horrores, mas ganhei presentinho de todos os meus colegas. Eles eram bem educadinhos S2.

Sobre português: Esqueci algumas palavras em português e quando eu cheguei no Brasil fui altamente zoada por falar com sotaque gringo. Juro que não era intencional. Depois de umas duas semanas tudo voltou ao normal, foi só no começo mesmo. Se você vir alguma criança fizer isso, não brigue ou fique zoando ela, é bem chato. Lembro que eu me senti super mal, ficavam falando que eu tava “me achando”. Pelo amor de Deus, né… eu tinha 10 anos, a última coisa que eu queria era ser diferente. Ignorância é foda.

Sobre hoje: Fiz mestrado todo em inglês, sem nunca ter pisado em uma aula de letras inglês. Já lecionei, entrevistei, fui entrevistada, escrevi textos, artigos, dissertações, matérias jornalísticas, traduzi filmes… Tudo sem problema algum. Ainda assim, confesso que toda a vez que eu viajo para fora sempre sinto um baque inicial. Não é dificuldade em falar ou entender, mas é aquele medinho de falar alguma coisa errada. Depois de uns dois dias eu entro no automático total, mas não deixo de me cobrar para falar perfeitamente o tempo todo. Sinto saudade de não ligar para nada, aquele senso de liberdade que a criança tem quando aprende algo.

Não canso de enfatizar que  se você tiver uma oportunidade, leve sua filha/o para fora. Eu, com toda a certeza do mundo, vou fazer de tudo para dar para a minha futura filha/o essa oportunidade.

O que eu trouxe aqui foi uma visão um pouco diferente do que as mães estão acostumadas a ler quando procuram sobre morar fora com os filhos. Não posso informar detalhes sobre, creche, escola, comida, viagem com bebê, por não ter essa experiência.

Para cobrir essa parte, finalizo com dois canais de youtube bem legais que falam sobre uma perspectiva familiar:

No Canadá, O Fala Maluca tem duas mães super dedicadas e muito descontraídas falando sobre maternidade e morar fora do país. É muito bom o canal, inclusive para quem não tem filhos.

Tem um clássico que algumas de vocês já podem ter ouvido falar, o canal da Flávia Calina. A história dela é muito legal, ela mora nos EUA. Vale a pena conferir, ela fala muito sobre educação dos pequenos também.

Espero ter ajudado e até o próximo post – onde eu falo de filhos adolescentes!

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